Mounjaro, Ozempic e as canetas emagrecedoras: o que toda mulher precisa entender antes de usar
- Arev
- 18 de mai.
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Atualizado: há 5 dias
Você provavelmente conhece alguém que está usando. Uma amiga emagreceu 15 quilos em três meses. Uma colega de trabalho conta com naturalidade que aplica toda quinta-feira. Uma celebridade comentou em entrevista. As medicações injetáveis para emagrecimento deixaram de ser tema de consultório e viraram conversa de almoço.
Esse texto não é para defender e nem para condenar, mas sim para entender de uma vez por todas. Foi escrito por uma nutróloga e uma nutricionista, a partir do que acompanham em consulta todos os dias com pacientes que usam, que querem usar, que pararam de usar ou que tentaram e não tiveram a experiência que esperavam.

Afinal, existe o uso indicado para essas medicações que pode mudar vidas, como também existe o uso problemático que está se tornando comum, com consequências que estamos começando a ver. A diferença entre os dois cenários está em três coisas: indicação clínica real, acompanhamento adequado e o que acontece depois.
O que são AS CANETAS EMAGRECEDORAS e como funcionam
Os medicamentos mais comentados hoje pertencem a uma classe relativamente nova chamada análogos de GLP-1, e mais recentemente análogos duplos GLP-1/GIP. São hormônios sintéticos que imitam substâncias que o próprio corpo produz após as refeições.
Ozempic e Wegovy têm o mesmo princípio ativo: semaglutida. Ozempic foi aprovado originalmente para diabetes tipo 2. Wegovy é a versão em dose maior, aprovada especificamente para obesidade.
Saxenda usa liraglutida, da mesma família, com aplicação diária. É uma versão mais antiga, com efeito menor e mais efeitos colaterais, hoje menos prescrita para emagrecimento.
Mounjaro usa tirzepatida, que atua em dois receptores ao mesmo tempo (GLP-1 e GIP). Estudos clínicos mostram resultados de emagrecimento superiores aos da semaglutida, e a medicação tem ganhado espaço rapidamente. No Brasil, foi aprovada para diabetes e obesidade.
Como funcionam, e m termos práticos: essas substâncias atrasam o esvaziamento gástrico (você fica saciada por mais tempo), reduzem o sinal de fome no cérebro, melhoram a sensibilidade à insulina e reduzem o "ruído alimentar", aquela voz constante pensando em comida. O resultado é uma redução significativa de fome e do desejo por comer, o que leva à perda de peso.
Em estudos clínicos com pessoas que se encaixam na indicação (obesidade ou sobrepeso com comorbidades), a perda de peso em um ano gira em torno de 15% do peso corporal com semaglutida e 20% com tirzepatida. Números expressivos, sem dúvida. Mas números de estudos não são números individuais, e perda de peso não é a única coisa que precisa ser olhada.
Quando há indicação clínica real (o uso que funciona)
Essas medicações foram desenvolvidas e aprovadas para um grupo específico de pessoas:
Obesidade clínica (IMC igual ou maior que 30)
Sobrepeso (IMC entre 27 e 30) com comorbidades associadas, como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono, síndrome dos ovários policísticos com componente metabólico significativo, ou doença hepática gordurosa
Diabetes tipo 2, no caso de Ozempic e Mounjaro originalmente
Para essas pacientes, o ganho clínico é real e pode ser muito relevante. Reduzir gordura visceral em uma mulher com resistência à insulina importante, com pré-diabetes ou com SOP metabólica, melhora marcadores que reduzem risco cardiovascular, melhora fertilidade e qualidade de vida. Em pacientes com obesidade que tentaram por anos abordagens convencionais sem resposta, essas medicações abrem uma porta que antes não existia.
Quando há indicação clínica real e o uso é bem conduzido, três coisas precisam acontecer em paralelo:

Investigação completa: Avaliação hormonal, metabólica e nutricional. Entender o quadro inteiro, não só pesar e prescrever. Saber qual é a fase de vida da paciente, qual o histórico, o que já foi tentado, o que está acontecendo no corpo.
Acompanhamento nutricional intensivo: Esse ponto é o mais negligenciado e o mais importante. A medicação reduz a fome, mas reduzir a fome não ensina a se alimentar bem. Sem contar que não muda comportamento e nem hábitos. Logo, o nutricionista é essencial para que a mudança seja duradoura, principalmente após o uso do medicamento. E como a fome reduz drasticamente, cada refeição precisa ter densidade nutricional alta e proteína suficiente. Sem isso, perde-se massa magra, perde-se nutrientes e perde-se saúde junto com o peso.
Planejamento de saída: Em algum momento a medicação para. O que sustenta o resultado depois? Se durante meses o que sustentou foi a química, e não a construção de hábitos e composição corporal, o peso volta. Quase sempre volta. Esse ponto precisa ser conversado e trabalhado desde o início.
Quando esses três pilares estão presentes, o tratamento com essas medicações pode ser, sim, uma ferramenta clínica poderosa. Mas, obviamente, não uma solução milagrosa, mas sim uma ferramenta de auxílio.
Quando o uso vira problemático (o que estamos vendo cada vez mais)
A popularização rápida criou um cenário em que muitas mulheres estão usando essas medicações fora da indicação original. Os padrões problemáticos mais comuns:
Uso por motivo estético em corpos que já estão dentro do peso. Mulheres com IMC normal querendo perder 5 a 8 quilos para um casamento, viagem ou evento. Esse uso não tem amparo clínico nas indicações aprovadas, e os riscos passam a pesar mais que os benefícios. O corpo não estava pedindo essa intervenção. A intervenção, nesse cenário, frequentemente desorganiza mais do que organiza.
Uso sem investigação prévia. Prescrição rápida, em consulta de 15 minutos, sem exames completos, sem avaliação de composição corporal, sem entender o contexto. A medicação entra como protocolo, não como decisão clínica.
Uso sem acompanhamento nutricional. A mulher recebe a receita e segue a vida comendo qualquer coisa em quantidades menores. Sem proteína suficiente, sem nutrientes adequados, sem entender o que precisa entrar no prato. O resultado é perda de peso com perda significativa de massa magra. O número da balança cai. O corpo fica mais flácido, mais cansado e mais fraco. A composição corporal piora apesar do peso baixar.
Uso para mascarar uma relação difícil com a comida. Mulheres com compulsão alimentar, comer emocional ou histórico de transtornos alimentares que encontram na medicação um silenciamento momentâneo da relação com a comida. O alívio é real, mas a questão de base segue sem tratamento. Quando a medicação para, a relação volta, geralmente intensificada.
Uso prolongado sem revisão. Continuar indefinidamente, sem revisar exames, sem ajustar dose, sem reavaliar se ainda há indicação, sem conversar sobre saída.
Esses padrões não significam que a medicação seja ruim. Significam que a forma como ela está sendo usada, em muitos casos, ignora o trabalho clínico que precisaria acontecer junto.
Os riscos que pouca gente fala
Toda medicação eficaz tem efeitos. As mais comentadas em consulta são:
Perda significativa de massa magra. Esse é o efeito mais subestimado. Estudos mostram que entre 25% e 40% do peso perdido com essas medicações pode ser massa magra, não gordura. Para uma mulher que já tem pouco músculo (a maioria, na faixa de 30 a 50 anos), isso significa sair do tratamento com metabolismo mais lento, corpo mais flácido e maior tendência a recuperar peso depois. Sem treino de força adequado e ingestão de proteína suficiente durante o uso, essa perda é praticamente garantida.
Efeitos gastrointestinais. Náusea, vômitos, constipação, refluxo e diarreia. Em geral, mais intensos no início e nas trocas de dose. Para algumas mulheres, são leves e passageiros. Para outras, persistem e prejudicam significativamente a rotina.
Relação com a comida desorganizada. A medicação tira a fome, mas a fome não é só fisiológica. Comer também é prazer, ritual, vínculo e conforto. Eliminar o desejo por comida sem trabalhar essa relação pode deixar marcas que aparecem depois, especialmente em mulheres com histórico alimentar complexo.
Efeitos sobre a face e a pele. A perda rápida de gordura, especialmente na região do rosto, gera o que ficou conhecido como "face do Ozempic": aparência envelhecida, pele mais flácida e perda de volume facial. Em mulheres jovens com pouco peso a perder, esse efeito é particularmente visível.
Efeito rebote ao interromper. Estudos de seguimento mostram que, quando a medicação é interrompida sem que tenha havido construção de hábitos sustentáveis e ganho de massa magra, a maioria das pacientes recupera o peso perdido em 1 a 2 anos. E volta com pior composição corporal que o início.
Riscos clínicos menos comuns, mas relevantes: pancreatite, alterações da vesícula biliar, e há um sinal de alerta (ainda em estudo) sobre câncer de tireoide medular em famílias com histórico. Por isso, a avaliação prévia importa.

Quando uma nutróloga e uma nutricionista conduzem o processo
O que diferencia o uso bem feito do medicamento do uso problemático não é a medicação em si, mas sim o entorno clínico.
Quando há indicação real de uso na AREV Health, o processo acontece assim: a nutróloga avalia o quadro clínico completo, investiga as causas do excesso de peso, conduz a decisão sobre prescrição, ajusta dose, monitora efeitos colaterais e marcadores laboratoriais ao longo do tratamento. A nutricionista entra desde o início e segue presente durante todo o processo, montando um plano alimentar que garante proteína suficiente, nutrientes essenciais e estratégias para que a paciente, comendo muito menos, ainda receba o que o corpo precisa para preservar massa magra, energia e saúde. As duas conversam continuamente, ajustam em conjunto e preparam a paciente para a fase pós-medicação desde o primeiro dia.
Em paralelo, o plano inclui treino de força regular (sem isso, perda de massa magra é praticamente certa) e atenção ao sono, ao estresse e à relação com a comida. A medicação é uma peça do trabalho, não o trabalho inteiro. Ler aqui sobre as dificuldades do emagrecimento.
Esse acompanhamento exige tempo, frequência e profundidade que uma consulta única de prescrição não oferece. É a diferença entre usar uma ferramenta poderosa de forma correta e usar uma ferramenta poderosa de forma que cria problemas novos.
Perguntas que valem fazer antes de começar
Se você está considerando usar canetas emagrecedoras, como Mounjaro, Ozempic ou outra medicação dessa classe, vale fazer cinco perguntas honestas:
Eu tenho indicação clínica real? IMC, comorbidades, histórico. Se a resposta sincera é "não, eu só quero perder 5 quilos para o verão", o caminho provavelmente não é esse.
Eu estou disposta a fazer investigação completa antes? Exames, anamnese estendida, avaliação de composição corporal. Não receita rápida em consulta de 15 minutos.
Eu terei acompanhamento nutricional durante todo o uso? Não consulta única no início. Acompanhamento contínuo, com plano alimentar real, ajustado mês a mês.
Eu vou treinar força regularmente durante o tratamento? Sem treino de força adequado, a perda de massa magra é praticamente garantida.
Eu sei o que vou fazer quando a medicação parar? Tem plano de saída? Tem trabalho comportamental sendo feito junto? Tem construção de hábitos que vão sustentar o resultado depois?
Se a maioria das respostas é não, o problema não é a medicação, mas sim o entorno que está sendo proposto.
A perspectiva da AREV no uso de canetas emagrecedoras
O que defendemos é que essas medicações sejam usadas como o que são: uma ferramenta clínica potente, dentro de um tratamento completo, com investigação, acompanhamento nutricional intensivo, treino de força e plano de saída. Não como substituto do trabalho que precisa acontecer no corpo, na alimentação e na rotina.
A diferença entre uma paciente que usa essas medicações com indicação e acompanhamento adequados, e uma paciente que usa por moda, sem investigação, sem nutrição e sem treino, não é sutil. Em 12 meses, a primeira está mais saudável, com melhor composição corporal e com mais autonomia sobre o próprio corpo. A segunda está mais magra na balança, mas com menos massa magra, com a mesma relação difícil com a comida e com alta probabilidade de recuperar tudo o que perdeu.
A medicação não decide qual desses caminhos você vai trilhar. O entorno clínico, sim.
Na prática
Se você está pensando em usar, busque uma avaliação clínica completa antes. Não apenas uma consulta que prescreve, mas sim uma consulta que investiga, conversa, avalia composição corporal e olha para o quadro inteiro.
Se você está considerando porque tentou de tudo e nada funciona, vale considerar que talvez "tudo" tenha sido várias versões da mesma estratégia (restrição calórica, dietas da moda, suplementos aleatórios). Antes de partir para medicação, pode valer uma avaliação clínica e nutricional aprofundada que olhe para por que o seu corpo travou. Em muitos casos, ajustar sono, hormônios, massa magra e comportamento alimentar destrava o emagrecimento sem necessidade de medicação.
Faça isso com o time clínico certo do lado. É a diferença entre uma ferramenta que muda sua vida e uma ferramenta que cria problemas novos que vão levar anos para resolver.





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