Psicoterapia corporal: quando o corpo guarda o que a mente não processa

Atualizado: 9 de set.
Existe uma experiência que quase todo mundo já viveu, mesmo sem saber nomear. É quando entendemos racionalmente algo que nos aconteceu, conseguimos explicar, contar a história com clareza, e mesmo assim o corpo continua reagindo como se nada tivesse sido resolvido. A tensão que não passa, o aperto no peito diante de certas situações, o choro que sobe mas fica entalado, a dificuldade de descansar mesmo quando finalmente há tempo para isso. É como se a mente já tivesse compreendido, mas o corpo ainda não tivesse recebido o recado.

Essa distância entre o que a mente entende e o que o corpo sente é justamente o território das pscicoterapias corporais, nome dado ao conjunto de abordagem que olha para o ser humano de forma integrada, reconhecendo que corpo e mente não são compartimentos separados. Para falar sobre isso com profundidade, conversamos com a psicóloga e psicoterapeuta Sabrina Sorci, que integra o cuidado oferecido no ecossistema da AREV.
O corpo guarda o que a mente não processou
A ideia de que o corpo carrega a nossa história não é uma metáfora poética, ela tem base concreta na forma como o sistema nervoso e a memória funcionam. Nem tudo o que vivemos fica registrado como lembrança que podemos acessar e narrar. Muita coisa fica gravada em camadas mais profundas, no corpo, no sistema nervoso, nas reações automáticas.
Como explica Sabrina, "considerando os estudos mais recentes sobre a neurociência das emoções, a nossa história não é apenas memória explícita, ou seja, aquilo que conseguimos nos lembrar sobre o que aconteceu conosco. A nossa história de vida também é composta pelas memórias implícitas, registradas no aparelho psíquico, sensorial e corporal, e nas estruturas físicas do sistema nervoso central e periférico".
É por isso que compreender racionalmente nem sempre é suficiente. "Apenas saber ou entender algo que nos passou muitas vezes não basta, pois o corpo continua reagindo ao evento a partir de fragmentos da história que não estão acessíveis à mente consciente", diz a psicoterapeuta. "Há algo que ainda precisa ser sentido, vivido no corpo, para que a experiência encontre um caminho que não seja apenas racional e verbal."
Ela lembra ainda de algo que costuma passar despercebido: parte significativa daquilo que nos constitui aconteceu antes mesmo de termos memória para registrar. "Se considerarmos os nove meses de vida intrauterina somados aos primeiros anos de vida, todos nós vivemos um conjunto bastante significativo de eventos marcantes ao qual não temos acesso direto através da memória. Contudo, esses eventos realmente ocorreram, nos constituem fisicamente e contribuem para que sejamos quem somos hoje."
Como as emoções não processadas aparecem no corpo
Se o corpo guarda o que a mente não alcança, ele também encontra formas de comunicar aquilo que carrega. E essas formas são mais concretas e reconhecíveis do que se imagina.
Sabrina descreve com clareza os sinais que observa. "Tudo aquilo que o corpo sente como verdade, ainda que não tenhamos acesso através da consciência, ele manifesta de alguma forma. Sintomas como taquicardia, insônia, irritabilidade e agitação motora refletem um sistema nervoso ocupado em antecipar eventos, preso em um fazer crônico, um sistema pré-ocupado, que parece estar lutando com algo com o qual um dia não foi possível lutar, ou fugindo de algo do que um dia não foi possível fugir."
Há também o oposto, o corpo que se desliga. "Outro conjunto comum de sintomas envolve entorpecimento, dissociação, fadiga crônica, sentir-se vazio ou sem vontade, sintomas que demonstram nossos sistemas de afastamento do sentir, talvez porque um dia sentimos demais ou porque não foi possível sentir por completo."
E então ela traz uma imagem que qualquer pessoa reconhece no próprio corpo: "Sabe aquele choro que parece que sobe da barriga, mas fica entalado na garganta ou preso na mandíbula? Ou aquela sensação de que nem sabemos mais como fazer para chorar?" São, segundo ela, exemplos de como aprendemos a nos relacionar com as próprias emoções.
As emoções não expressas, completa, aparecem "na postura, na musculatura, nas vísceras: tensões crônicas, sintomas gástricos e intestinais, sensação de aperto no peito ou de falta de ar sem causa médica, e coisas ainda mais sutis, como aquela dificuldade de descansar, de confiar ou de sentir prazer".
Um cuidado que escuta o corpo

É diante desse cenário que a psicoterapia corporal se apresenta como um caminho. Elas não substituem a fala, mas a ampliam, incluindo o corpo como parte do processo terapêutico. Sabrina explica que essas práticas "ancoram a escuta e a prática clínica na história de vida gravada no corpo e no modo como as nossas emoções e estados psíquicos organizam o nosso sentir e o nosso saber".
Na prática, isso se traduz em um conjunto de experiências, como ela descreve: "autopercepções corporais, posturas, respirações, toques sutis, relaxamentos, movimentos, visualizações e verbalizações, ou seja, um conjunto de experiências capazes de ampliar nossa percepção, nossas sensações e nossa consciência sobre como as emoções surgem no nosso corpo".
O trabalho, segundo ela, envolve ouvir em vários níveis ao mesmo tempo. "As sessões incluem ouvir as palavras, não apenas com os ouvidos, mas com todo o corpo, ouvir o corpo, as palavras não ditas, as sensações, emoções, angústias e prazeres, e explorar e construir novos caminhos." E há um momento que ela considera essencial, o da integração: "o descanso, a entrega, o silêncio interno. Integrar não é necessariamente entender. É experimentar um jeito seguro de ser quem somos, em companhia."
Esse ponto é importante, porque desfaz a ideia de que a cura vem de uma grande revelação. "Um corpo marcado por experiências de insegurança ou de abandono se reorganiza pela repetição de experiências de segurança e de presença verdadeira, não por um insight único", diz Sabrina. O cuidado, aqui, é construído no tempo, e não em um momento de estalo. E nem sempre parte da dor: "há espaço para falar também sobre o prazer, a alegria, a conexão, o desejo. Nem todos os dias são de dor, há dias em que a potência se apresenta como tema".
Um caminho único para cada pessoa
Se há algo que atravessa toda a fala de Sabrina, é a recusa a fórmulas prontas. Para ela, o cuidado da pscicoterapia corporal é, por natureza, individual, porque nasce da relação única entre terapeuta e paciente.
"Muito do que se passa na nossa vida e no nosso mundo interno não é da ordem da palavra. As palavras ajudam, e muito, mas não dizem tudo. Há algo de nós que não cabe nas palavras, e a minha clínica acolhe isso que não cabe, isso que fica sempre faltando dizer", explica. É a partir dessa escuta do que não se verbaliza que o caminho de cada pessoa se desenha, e ele nunca é igual ao de outra.
Ela usa uma imagem precisa para falar disso. "A ansiedade que eu sinto no meu corpo pode até parecer com a ansiedade que você sente no seu, mas elas não são iguais, pois não surgiram da mesma forma nem das mesmas relações." Por isso, conclui, "o caminho de voltar a sentir o corpo em um espaço seguro, onde você pode sentir prazer, limites e presença, nunca será igual para duas pessoas diferentes". E completa, com a leveza que atravessa toda a conversa: "costumo brincar dizendo que direção importa mais que velocidade, e que a companhia precisa fazer sentido".
Essa forma de olhar, que honra a singularidade de cada história e de cada corpo, é exatamente o que a AREV acredita e pratica. O cuidado que parte da individualidade, que integra corpo e mente, e que entende a saúde como algo que se constrói de dentro para fora, respeitando quem cada pessoa é e o momento que ela vive.
a PSICOTERAPIa corporal dentro da arev
O trabalho da Sabrina Sorci dentro do ecossistema da AREV amplia o cuidado para uma dimensão essencial e muitas vezes negligenciada, a de que o corpo também precisa ser escutado, e não apenas tratado.
Psicóloga clínica, psicoterapeuta e analista biodinâmica, com especializações em Psicologia Biodinâmica, Análise Reichiana Contemporânea, Transpessoal e Bioenergética, oferece um trabalho que dialoga profundamente com a visão integrada de saúde da AREV, em que corpo, mente e vida são inseparáveis.
Para quem sente que já compreendeu muito racionalmente, mas percebe que o corpo ainda carrega algo que a fala não alcançou, o trabalho da psicologia corporal pode ser um caminho. Sabrina atende online, com atendimento terapêutico individual e também um programa de práticas piscocorporais para manejo do estresse.
Se você quer conhecer o trabalho da Sabrina e entender qual caminho faz mais sentido para você, entre em contato com a AREV.





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